A quarentena imposta devido à propagação da pandemia da covid-19 incentivou a Zahil a criar o quadro de lives chamado Zahil Entrevista, onde temos a chance de conversar com profissionais e enólogos, ao mesmo tempo que estamos em contato com clientes, amigos e seguidores. Não há dúvida que as lives não substituem a experiência de degustar um vinho junto de outras pessoas, mas a facilidade de contato que o mundo digital oferece é ímpar.

A Quinta da Romeira ocupa 75 dos 170 hectares que pertencem à Denominação de Origem Bucelas, única DO portuguesa totalmente dedicada à vinhos brancos. Para termos percepção do pequeno tamanho desta região, António comparou Bucelas com a dimensão da Quinta da Leda – propriedade da Casa Ferreirinha (também do grupo Sogrape) localizada no Alto Douro e que dá origem às uvas que compõem o blend do Barca Velha – que possui 160 hectares.
Bucelas é uma pequena perola situada a 25 minutos da capital e uma das nove sub-regiões que compõem a Região Vitivinícola de Lisboa, antigamente chamada Extremadura. A mudança do nome, ocorrida em 2009, veio bem a calhar em um momento de expansão do turismo no país e avanço da notoriedade dos vinhos portugueses, afinal lembrar do nome Lisboa é muito mais fácil no mercado internacional que Extremadura. No entanto, este mesmo desenvolvimento econômico inflou os preços do mercado imobiliário da capital e acarretou no avanço da urbanização para as regiões ao redor, gerando pressão na continuidade de produção vitivinícola destas áreas próximas, especialmente Bucelas, Colares e Carcavelos, famosas por fazerem vinhos de qualidade.
A decisão da Sogrape (principal grupo vitivinícola português e um dos maiores do mundo) de comprar a Quinta da Romeira em janeiro de 2019 foi recebida de braços abertos pelos pequenos produtores de Bucelas, já que reforça o valor de seus vinhos bem como é um indicador de investimento no desenvolvimento da região.
Em termos de castas, a principal variedade é a Arinto que, junto com Alvarinho e Encruzado, formam o trio das melhores uvas brancas portuguesas da atualidade! Segundo António Braga, uma boa casta se apresenta pela sua capacidade de ‘viajar bem’. Ou seja, pela sua habilidade de se adaptar a diferentes terroirs, alcançando características distintas em cada um deles. É o que acontece com a Arinto. É possível encontrá-la deste a região dos Vinhos Verdes, onde dá volume ao blend, no Douro, onde aporta frescor aos vinhos, na Bairrada até chegar em Bucelas. Aqui, a Arinto apresenta teor alcoólico relativamente baixo (entre 11,5-12%) e acidez alta que são equilibrados por sabores de fruta madura e excelente potencial de envelhecimento em garrafa, onde, segundo Braga, ganha riqueza de textura e aromas minerais, semelhantes à Riesling.
Além da Arinto, é também permitido na composição do blend o uso das variedades Rabo de Ovelha e Esgana Cão (conhecida como Sercial na Bairrada e com acidez muito alta, por isso era plantada nos arredores dos vinhedos principais para afastar animais ávidos por uvas doces).

O histórico casarão com janelas manuelinas – que se tornaram parte integrante do novo logotipo da vinícola – está sendo restaurado. Foi ali que o Duque de Wellington usou como paragem no século 19, quando auxiliou Portugal contra as invasões Napoleônicas. Terminado o conflito e de volta à Londres, o Duque apresentou à corte inglesa os vinhos de Bucelas, que se tornaram preferidos de muitos nobres, ficando conhecidos como Portuguese Hock (provavelmente devido a semelhança aos vinhos alemães de Baden, feitos ao redor da cidade de Hockenheim).
O vinho que marca a chegada da Quinta da Romeira na Zahil é o Prova Régia, feito na sua totalidade com Arinto. É leve, refrescante, porém com textura cremosa e um toque mineral (pedras molhadas) no final, que o deixa prazeroso sem ser monótono. Ótimo para acompanhar frutos do mar e ostras.
A safra 2018 foi a última antes da chegada da Sogrape à Romeira e ainda apresenta a identificação de Indicação Geográfica Protegida Lisboa, pois mesmo sendo feito majoritariamente com uvas da propriedade, naquele ano foram incorporadas uvas cultivadas fora de Bucelas. No entanto, recebemos em primeira mão a notícia que em breve o Prova Régia se tornará um DOC Bucelas, mostrando ainda mais a qualidade desta região.
Texto por Bianca Veratti DipWSET